Dezembro 01 2009

 

Esta entrevista surge no âmbito do trabalho “Ciências Forense -Arte ou Crime?” da disciplina de Área de Projecto. Temos como objectivo obter informações indispensáveis acerca da criminologia.

Na nossa opinião, esta entrevista Drª. Vera Brandão Alves será bastante útil, uma vez que já tem experiência prática na prisão de Custóias.

 

 


Nome: Vera Brandão Alves

Sexo: Feminino

Estado: Solteira

Idade: 30

 

  1. O que a levou a escolher essa profissão?

 

Desde pequenina que o meu sonho era entender o que se passava por detrás dos muros do EP de Custoias. Podemos chamar curiosidade. Há medida que ia passando por Custoias, perguntava-me a mim mesma como seria “viver” entre 4 muros e quais seriam os sentimentos que fervilhavam em cada um dos reclusos. A curiosidades foi aumentando, os conhecimentos também e um dia resolvi bater á porta do referido EP e pedir ao Director que me deixasse fazer um trabalho para a Faculdade com um recluso. Andava no 3º ano da faculdade. Vim embora sem resposta e sinceramente achei que nunca mais me dariam essa oportunidade. Uma semana depois recebi uma chamada de Custoias e facilitaram-me o acesso ás instalações, a um recluso e fiz o meu primeiro trabalho nesta área. Entrevista a um Homicida. Desde aí, a vontade de continuar a entender este mundo por detrás das grades foi aumentando e um ano depois estava a fazer o meu estágio académico no mesmo estabelecimento. Foi fácil, desde aí, perceber que me devia especializar na área forense/criminal e assim foi.

 

 

  1. Em que consiste o seu trabalho como psicóloga criminal?

 

Actualmente estou um pouco afastada em termos práticos desta profissão, estou apenas ligada á investigação na área. Ser Psicóloga Criminal em Portugal, não se assemelha ao que vemos diariamente nas séries de investigação criminal, como o CSI e outras. Basicamente, psicólogos forenses, visto ser este o melhor termo para se referirem a psicólogos criminais, elaboram perícias de avaliação a reclusos, a abusadores sexuais, a agressores sexuais, ofensores de violência doméstica entre outros casos, que avaliam a imputabilidade/inimputabilidade dos mesmos nos referidos crimes, ou seja, se estariam na altura do crime conscientes do que estavam a cometer ou se estariam num estado alterado da consciência que não lhes permitia perceber o grau do crime que cometeram, assim como elaboram avaliações a nível intelectual, cognitivo, sócio-emocional e elaboram relatórios que acompanham todo o processo no tribunal. São os chamados relatórios forenses. Importantes na decisão do Juiz sobre que medida a aplicar. Ainda há psicólogos que se dedicam essencialmente á investigação forense, contribuindo com os seus estudos científicos para um melhor conhecimento desta área, uma vez que ainda é uma área com muito substancial a explorar e com muito trabalho a ser efectuado.

 

 

 

  1. Na sua experiência, como psicóloga criminal, considera que a maior parte dos casos melhora com as várias sessões de ajuda psicológica?

 

Quando colocam esta questão, referem-se apenas aos psicólogos que trabalham nos Estabelecimentos Prisionais do País. Só estes dão apoio aos reclusos, pois os mesmos não se podem deslocar para fora dos muros das prisões. Durante a medida privativa de liberdade, os reclusos são acompanhados por psicólogos, ou não. São prioridade os que apresenta alguma patologia psicológica que requer intervenção e tratamento, assim como apoio psiquiátrico e medicação indicada, e recorrem ao apoio psicológico os reclusos que livremente pedem ajuda por variadíssimos motivos, muitas vezes por solidão ou depressão. Nestes casos mais simples, o apoio psicológico torna-se muito importante e muitas vezes é uma forma de falarem, desabafarem e encontrarem um apoio, o que ajuda muito ao recluso quer a sua integração no EP, quer a continuidade e adaptação ao mesmo. As melhorias aqui são visíveis. Nos casos referidos em primeiro lugar, como sabem, muitas patologias são crónicas, o que não têm cura. São acompanhados, medicados e compensados, podendo vir a ter uma vida dita normal, mas a patologia persistirá. Por outro lado, a vossa pergunta deveria ser centrada numa outra questão, esta sim mais prática e adequada ao vosso tema, muitos destes reclusos, ofensores, conseguiram reintegrar-se na sociedade? Será possível fazer um trabalho de reinserção sócia? A estas perguntas responderia da seguinte forma. Muitas vezes não é possível. Muitas voltam a reincidir, a cometer novos crimes e regressam aos estabelecimentos prisionais, aos tribunais. Poucos são os que na realidade, com os apoios todos a que têm direito, se conseguem redimir e integrar na sociedade com vontade de mudar de vida. Contudo, se me perguntam se acho possível que eles melhorem, acho sim, mas acho que lhes falta também a eles força de vontade para o conseguir. Voltar a viver em comunidade depois de se estar detido não é fácil. Os rótulos, os preconceitos são muitos da sociedade em que vivemos em relação a eles. A rejeição que por vezes encontram quando saem em liberdade, leva-os a cometer novos delitos, não que isto seja correcto, mas porque não conseguem estar na vida de outra forma. A nossa intervenção é crucial, e ajuda em muitos casos. Contudo é necessário ter presente que esta intervenção leva tempo a alcançar os seus sucessos…

 

 

  1. Os reclusos costumam aceitar com facilidade a ajuda que a sua profissão oferece?

 

Esta pergunta requer obrigatoriamente duas respostas. Sim, alguns aceitam com facilidade e procuram voluntariamente a nossa ajuda, porque entendem que é uma forma de desabafarem, de terem um apoio, uma ajuda para minimizar a pena, e uma ajuda para no futuro os ajudar na reintegração na sociedade. Não, muitos não aceitam ter apoio psicológico, por não considerarem que este apoio seja uma mais valia para eles e por acharem que não têm qualquer problema psicológico que justifique uma intervenção psicológica. Penso que terá tendência a mudar com os tempo, que mais recorreram a apoio psicológico, e aos que dizem que não, é necessário também captar-lhes a confiança e faze-los acreditar que é uma mais valia para eles.

 

 

  1. Quais os métodos que utiliza para ganhar a confiança de um recluso?

 

Na questão da confiança, penso que o mais importante não será como ganhar a confiança, mas como nunca a perder. Ou seja, trabalhar sempre para que eles nunca percam confiança em nós. Não existem métodos específicos para ganhar a confiança, serão os mesmos que no dia a dia “usamos” para estabelecer uma relação de confiança com alguém. Para muitos reclusos, os psicólogos são um elo de ligação ao mundo exterior, uma forma de obterem apoio, amizade, ajuda. Uma vez estabelecida esta relação, que não é difícil estabelecer, embora em alguns casos leve mais tempo que outros, o mais problemático e importante é nunca quebrar esta relação. Muitas vezes, sem nos apercebermos, quebramos a relação e depois é muito difícil recuperar

 

6.             6.     Considera que o seu trabalho uma profissão de risco?

 

Como todas as profissões, há sempre riscos inerentes, mas não considero uma profissão de risco. Pelo menos não do risco a que se tentam referir. Costuma muitas vezes dizer que estamos mais seguros num estabelecimento prisional que na rua no dia-a-dia. Aí sim não sabemos de que lado vem o risco.

 

 

  1. Na sua curta passagem como psicóloga em Custóias teve algum caso de risco?

 

Não. Tive situações de muito embaraço, uma vez que ouvia muitos piropos quando passava pelos corredores, mas de risco nunca tive nenhuma situação.

 

 

  1. Qual o caso que a marcou mais?

 

Sem referir nomes e sem referir detalhes do crime, o caso que mais me marcou foi um homicídio. O agressor era um jovem, que desde cedo foi vítima de agressões sexuais por parte do pai. A mãe era alcoólica e cresceu sempre em instituições para crianças com problemas. Ficou órfão muito cedo, alistou-se no exército da legião estrangeira e viveu alguns anos no estrangeiro como fuzileiro. A família já tinha muitos antecedentes criminais e ele não fugiu á regra. Aos 20 e poucos anos comete homicídio e obteve uma pena de 17 anos. Os contornos e a forma como elaborou e pensou o crime foram tão macabros que me prenderam a atenção e me gelaram dos pés á cabeça. Lidei com ele durante mais de um ano, tendo feito trabalhos de investigação baseado no seu caso. Ainda hoje me recordo do nome, das feições e de toda a história. Perdi-lhe o rasto pois foi transferido de Custoias por ser considerado perigoso, e hoje não sei nada dele. Penso que ainda estará detido.

 

  1. Alguma vez se envolveu demasiado num caso?

 

Não. E é muito importante que isso não aconteça. Há um envolvimento dito razoável e aceitável próprio do apoio a ser realizado, mas é só. Pelo menos no meu caso foi só. È importante que nunca esqueçamos a realidade em que estamos a trabalhar e o porque de essas pessoas estarem privadas de liberdade.

 

 

  1. Sente que esta ajuda psicológica é fundamental para recuperação do recluso, quando este sai da prisão?

 

A ajuda psicológica é fundamental para o ajudar durante a pena, quer quando sai em liberdade. A adaptação á prisão é muito difícil e muitos necessitam de apoio para que esta integração ocorra sem grandes mazelas psicológicas. O trabalho deve ser iniciado aquando da entrada do recluso e uma vez em liberdade deve ser continuado no exterior. O apoio psicológico deve ser um processo continuo ao longo da medida privativa de liberdade e ate integração na sociedade, não pode ser apenas um caso pontual para quando saem do EP.

 

 

  1. Alguma vez sofreu alguma agressão física?

 

Nunca.

 

 

  1. Para terminar, teve algum caso no qual pode dizer que foi um caso de sucesso?

 

O sucesso é um termo muito complexo nestes casos. Mas sim, há casos em que os reclusos não voltam a reincidir e isto é sem dúvida um sucesso.

 

 

publicado por cienciaforenseap às 17:47

Ola'' . . eu gostei muito do blog. . eu também estou a fazer um trabalho em ap acerca da Criminalidade em que o subtema é "A mente dos criminosos" e, devido a este facto, gostaría de saber se podem dar o contacto da psicologa criminal, porque a presença desta tambem e' muito importante para o nosso trabalho. É que, infelizmente, estamos a ter muita dificuldade em encontrar alguma disponivel.
Se necessitarem de algo, uma vez que os trabalhos são parecidos, nao hesitem a perguntar tambem. Mandem resposta para catarina-moreira@hotmail.com
Muito obrigada :)
Catarina Moreira
Catarina a 1 de Abril de 2010 às 23:41

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